Desafio

Nos finais de 1986, a Sociedade do Notícias, SA, então proprietária dos jornais notícias e domingo, registava no seu “stock” grande quantidade de papel, que, na altura, o país recebia, sob forma de donativo, dos países do Leste Europeu.

José Catorze, então director-geral da Sociedade do Notícias, discutiu o assunto a nível da empresa e do então Ministério da Informação para o aproveitamento de grande parte do papel que sobrava e que não era aproveitado.

Houve várias ideias, mas acabaria vingando aquela que preconizava a criação de mais uma publicação na empresa, desta vez virada exclusivamente para reportar assuntos desportivos nacionais e internacionais.

Nos primeiros anos de 1987, a ideia da criação de um semanário desportivo já fervilha na empresa e foram dados, imediatamente, passos significativos para a sua concretização.

O quadro redactorial do notícias, afecto na secção desportiva do mesmo jornal, constituído por Jorge Matine (chefe), Renato Caldeira, Albuquerque Freire, Alexandre Zandamela e Boavida Funjua foi partido ao meio.

 Renato Caldeira, Alexandre Zandamela, Boavida Funjua e o foto-jornalista Domingos Elias eram indicados para constituir a equipa editorial do futuro jornal, tendo a direcção da empresa nomeado inicialmente, Renato Caldeira como Chefe da Redacção.

A ideia era fazer coincidir, tanto quanto possível, o lançamento da nova publicação com os festejos do 12º Aniversário da proclamação da Independência Nacional, que, nesse ano de 1987, se assinalava no país.

Que nome dar ao jornal, quantas páginas teria, quais os assuntos que iria abordar, qual seria a sua política editorial? Estes eram os assuntos que deviam ser estudados meticulosamente a fim de não se defraudarem as expectativas então criadas.

Para encontrar o nome da publicação, optou-se por um concurso público, com direito a prémio para o vencedor. Nesse concurso choveram nomes como o Jogo, A bola, Magazine de Desportos, Chingofo, Desafio, Campeão e tantos outros que, por absoluta exiguidade de espaço, não é nos possível publicá-los a todos.

Foram mesmo centenas e centenas de envelopes enviados pelos leitores a propor o nome da futura publicação. Foi feito uma primeira triagem para eliminar aqueles nomes que já existiam no mercado e depois se procedeu a um sorteio puro, tendo saído vencedor o nome desafio.

A equipa redactorial, então escolhida para dar o arranque do jornal, trabalhava incansavelmente no layout, nos assuntos editoriais que o jornal devia abordar com profundidade, fazendo desta publicação uma verdadeira fábrica de ideias, um local de debate,  questionamento, de critica e exaltação do fenómeno desportivo, que se pretendia que fosse descomprometido com clubismos doentios, com a corrupção, com a falsificação da verdade desportiva e que no plano interno e internacional prestigiasse a República de Moçambique.

As 15.45 horas do dia 24 de Junho, - quarta-feira – com o edifício-sede do notícias repleto de gente entre ardinas e desejosos de comprar a primeira publicação, a velha rotativa do notícias deu a primeira volta que consumava o “parto” do semanário desafio e as 16.15 horas desse mesmo dia o primeiro ardina a sair com um lote de jornais era assaltado pelo público que já aguardava, nas imediações das instalações da sede do notícias, paciente e sequiosamente pela saída do jornal.

Nessa primeira edição, o então director-geral donotícias, José Catorze, escrevia em jeito de editorial:

Um novo jornal moçambicano inicia hoje a sua publicação. É o primeiro jornal desportivo criado desde a Independência Nacional e vem preencher uma lacuna que se fazia sentir na informação: a de um órgão totalmente virado para a cobertura da actividade desportiva nacional e internacional.

O novo jornal terá como prioridade a valorização do Desporto Nacional  - um desporto que se pretende de massas, com um alto nível competitivo, isento de clubismos doentios, um desporto que enriquece o homem moçambicano e que prestigie a República de Moçambique.

Lutaremos, no geral, por um desporto são, factor de desenvolvimento físico  e espiritual do homem, elemento positivo  na formação da nossa juventude, instrumento de consolidação e reforço da unidade nacional. Instrumento também de paz, de amizade e de competição entre os povos.

Surgindo num meio desportivo ainda dominado, em muitos casos, por interesses mesquinhos, rivalidades pessoais, intrigas e grupismos, o nosso jornal afirma-se, desde já, como independente de quaisquer grupos ou clubes e reivindica o direito de denunciar aqueles males onde quer que os detecte.  

desafioganhou rapidamente os seus leitores, o seu mercado e passou a ser uma referência quase que obrigatória nos clubes, nos atletas, dirigentes desportivos, sócios e simpatizantes da actividade desportiva, chegando a  empresa a ter uma tiragem de 35.000 jornais semanalmente!!!

Mas a estória deste jornal não é apenas de triunfalismos. Em 1990, com a marcha do Programa de Reabilitação Económica, a empresa teve que passar a  comprar pessoalmente o papel e os custos operacionais do desafio eram onerosos, tendo a empresa tomado a decisão de  adjudicar a exploração do jornal a uma empresa privada.

Assim, no dia 24 de Junho de 1994 foi assinado um contrato de cessão de exploração entre a SOCIEDADE do Notícias, SARL e a MOZSPORT, Lda. (Moçambique Desportos Lda.),

A nova empresa prometia reeditar o jornal  e arrancou com um capital de 260 milhões de meticais da antiga família, sendo que o BPD (Banco Popular de Desenvolvimento) detinha 40 por cento do capital inicial, os empresários Francisco Armando Cossa e Marcelino Macome, 30 por cento cada um.

Era igualmente anunciado que o novo jornal sairia com 16páginas, duas vezes por semana, às segunda e sextas-feiras.

Esta decisão implicou o encerramento do desafio por período de mais de um ano e alguns meses para efeitos de reorganização e modernização, uma vez que os novos “patrões” queriam que a produção do jornal fosse modernizado e introduzir os ventos da informatização que  já haviam chegado ao país.

De facto, fomos a primeira redacção totalmente informatizada na empresa, quando voltamos a sair a rua.

A Mozsport, Lda., então concessionária do desafio, apesar de ter herdado todo o quadro editorial que era da Sociedade do Notícias, SA, instalações e outras facilidades, acabou por ter graves problemas de gestão da publicação que se reflectia no não cumprimento das suas obrigações para com terceiros e os salários dos trabalhadores mensalmente estavam tremidos.

Esta situação fez com que grande parte do seu quadro redactorial deixasse a publicação e fosse alistar-se numa nova publicação que então nascia, também, eminentemente desportivo, o Semanário Campeão.

Esta situação foi gerida em Banho Maria entre a Sociedade do Notícias e Mozsport Lda. até que se chegou a uma situação insustentável onde se colocavam duas hipóteses:

- decretar a falência da Mozsport e consequentemente do jornal;

- a Sociedade do Notícias reaver a publicação e os quadros da área editorial e passar a geri-la.

Prevaleceu a segunda opção. A Sociedade do Notícias, SA reavia o jornal e rapidamente foram dados passos significativos para a sua reorganização e para lutar no mercado pela sua afirmação perante a concorrência que lhe era movida pelo Semanário Campeão.

Foram anos difíceis, mas com uma equipa liderada por Almiro Santos, tendo Boavida Funjua como Chefe de Redacção e alguns jovens que foram recortados, o jornal voltava a estabilizar-se em termos de vendas de número de leitores e com um grande suporte da Sociedade do Notícias, SA  voltava a afirmar-se no mercado.

De 18 passou passou para 24 páginas, chegou a dedicar um parte do seu espaço à actividade cultural, teve muitas mutações no seu layout e de preto a branco passou a ser colorido, saindo invariavelmente com edições de 32 páginas.

Tido como jornal de bandeira a nível desportivo, desafio tem vindo a cobrir toda a movimentação desportiva nacional, internacional, não havendo dúvidas de que é a preferência número dos leitores, mesmo hoje em dia em que há publicações similares.

É este desafio iniciado em 1987 que continua a desafiar todas as segundas-feiras, competindo ao leitor julgar se valeu a pena ou não a ideia dos que pensaram pela sua criação, passados todos estes anos todos.   

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