Um abraço especial ao Chris meu grande amigo de Chirundo
Deadline
“Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país. Nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros. Mas que sabe ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas. Nesse território, eu não tenho apenas sonhos. Eu sou sonhável.” (Mia Couto).
Ainda carrego comigo os resquícios do cansaço dos 2114km de puro asfalto percorridos de Maputo-Joanesburgo-Zimbabwe até Kitwe, Zâmbia feitos em cerca de 1718 minutos (28 horas). Quando me formularam o convite com Madame Sue, a “dona” da Cosafa, para fazer parte da estrutura organizativa de mais uma edição do torneio Sub-20 de futebol da Cosafa que teve lugar em Kitwe, aceitei-o sem hesitar, o que eu não esperava era o longo percurso que teria pela frente… a primeira vez que fui à Zâmbia foi de avião e não imaginava que desta vez a fastidiosa e aventurada viagem seria de autocarro.
Disse certo autor que “o medo é o inibidor da curiosidade, é uma recusa frente ao novo. Se vencermos o medo abrimos um novo horizonte”. E eu, como um amante aficionado em descobrir novos mares fui audaz e não me fiz de rogado.
No dia 1 deste mês, por volta das 5.28 horas, saía de Maputo a Joanesburgo como primeira escala, afinal seria lá onde tomaria o autocarro com destino à Zâmbia. Depois de cerca de 10 horas de viagem, considerando que a esta época do ano o tráfego é intenso e com várias paragens pelo caminho. Por volta das 20.00 horas entravámos no Park Station, a terminal localizada na agitada cidade de Jo’burg. Logo à entrada deparei-me com um fulano que trazia na sua mão uma placa com o meu nome gravado. Era o senhor David, o motorista que me levaria até ao hotel onde devia pernoitar antes de iniciar a minha odisseia.
– Estou aqui a mais de quatro horas. A que se deveu o atraso? Perguntou o senhor com a cara franzida. Respondi prontamente que foi o congestionamento. A cidade estava um caos.
Para desanuviar o ambiente, visto que o homem estava stressado com a demora, apresentei-me. Ainda no meio da apresentação recebo uma chamada via WhatsApp do meu amigo e colega sul-africano Samuel. Ele é fotógrafo da backpagemedia, uma conceituada empresa de fotojornalistas. Ele saudou-me em Changana… Tal facto despertou a curiosidade do senhor David, que também em Changana perguntou-me: “Wu huma kwini? Percebi logo que podíamos nos comunicar na mesma língua. Dali para frente a cara amarrada do David deu lugar a um sorriso de orelha a orelha, afinal alguns dos seus ancestrais são oriundos de Moçambique. Passei a chamar-lhe de malume (tio). Foi divertido e o tratamento passou a ser de cordialidade.
Chegado ao hotel tive a informação de que teria a minha passagem à Zâmbia na estação dos autocarros da Juldan Motors, o local está a 10 minutos do hotel onde estava hospedado. Por volta das 5.00 horas eu já estava posicionado na recepção com as minhas trouxas na mão à espera do motorista, mas desta vez não foi o David que me veio buscar, já não me lembro do nome do tipo. O autocarro partia às 7.30 horas e o fulano só chegou ao hotel por volta das 6.55 horas…
Atrasado e com os passageiros dentro do carro, apressei-me em fazer o check-in, certifiquei-me se tudo estava em ordem ou não. Com o bilhete na mão, faltava-me apenas entrar no carro e seguir viagem. Quando pensava que tudo estava em ordem eis que o fiscal aparece e diz-me que a mala que eu trazia devia ficar e só a teria na semana seguinte pois já não havia mais espaço e eu devia ter trazido no dia anterior para ser arrumada… fiquei gelado, sem entender o porquê de tudo aquilo!! Pediram-me que eu me decidisse rápido, pois o carro pretendia partir. Fui firme e lhes disse que não podia deixar a mala porque a minha missão não faria sentido. Eis que no meio daquela apreensão surge o meu anjo da guarda.
A princípio estranhei e perguntei a mim mesmo que homem era aquele que se voluntariava para ajudar-me, numa altura em que vivemos uma época em que regista-se uma incrível perda de valores sociais, que se traduzem em vidas cada vez mais desorientadas e vazias. As pessoas andam desconfiadas umas das outras, a confiança deixou de fazer sentido, apenas o egoísmo caracteriza o ser humano. O facto é que depois de alguns minutos de conversação o “anjo” Chris consegue convencer ao chefão que a minha pequena mala cabia no autocarro e lá nos fizemos ao bus. Ainda assim continuava incrédulo perante aquele “bom samaritano”, que decidiu ajudar o moçambicano desesperado.
Apenas agradeci-lhe pelo gesto e o mesmo retorquiu dizendo que já havia passado por uma situação similar na Namíbia. “Percebi o teu desespero e entendi que não eras zambiano. Os estrangeiros passam por situações similares”… explicou o Chris. Nascia ali uma amizade que deixou marcas fortes em mim. Ao longo da viagem demos cabo de duas garrafas de ballantines que nos ajudaram aguentar a longa espera na caótica fronteira de Beitbridge (do lado zimbabweano). Quem já passou por lá sabe bem do que falo. Chris disse-me ao longo da viagem que teríamos mais uma paragem longa em Chirundo, a fronteira do lado zambiano e que por sinal é a localidade onde ele nasceu.
Chegado a Chirundo Chris apresentou-me aos irmãos, amigos influentes da Migração, bancários, anciãos, polícias e não só. Enquanto aguardávamos a vistoria do autocarro por parte das autoridades da Migração foi-me servido um banquete de pratos da gastronomia local. Ainda sobrou um tempinho para deliciar-me da vislumbrante paisagem hipnotizante do grande rio Zambeze, que serpenteia Chirundo. Aprendi muita coisa e quis aprender mais sobre Chirundo. Não deu tempo porque já estávamos com o “deadline”. Tinha que seguir viagem. Na memória ficam recordações de uma fascinante viagem que fica eternamente marcada em mim… até um dia Chirundo.
Raimundo Zandamela


Estão, há bastante tempo, estabelecidos os critérios de rotação, entre promoções e despromoções das nossas equipas em diferentes competições do calendário futebolístico elaborado pela Federação Moçambicana de Futebol (FMF), desde as provas das camadas de formação até à principal prova, que é o Moçambola.
BOLA PRESA
O degradante desempenho da Selecção Nacional Feminina de Basquetebol da categoria de Sub-16, sábado último terminado na cidade da Beira, fez-me ultrapassar as medidas da minha imensa quanto longa paciência para com quem dirige o basquetebol moçambicano, em particular, mas também, e de modo geral, para com a Inspecção do Ministério da Juventude e Desportos.
Em edições anteriores fizemos alusão a alguns desacertos no Costa do Sol, sempre com o mesmo artista em evidência: o presidente Chicualacuala. Recentemente, o mesmo personagem surge numa nova novela, mas com um papel claramente diferente e elogiável.
Se é para defender o basquetebol;