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OPINÃO

BOAVIDA FUNJUA (1959-2018): UM PROFISSIONAL, PROFESSOR E EXIGENTE

Foto de Arquivo. Da esquerda para direita: Almiro Santos, Boavida Funjua e Reginaldo Cumbana

A escrita de Boavida Funjua marcou uma época no jornalismo desportivo do país. Um dos fundadores do desafio, Funjua nunca foi um homem de trato fácil, mas não se pode questionar o seu profissionalismo. Um profissionalismo que roçava à desconfiança na medida em que sempre que nos escalasse para uma actividade minutos ou hora depois aparecia o chefe Funjua da sua “cinquentinha” (motorizada), como se fosse um supervisor à procura de apurar se os seguranças não abandonaram o posto de trabalho. Ele era assim porque não queria ser surpreendido com falta de material de qualidade à hora do fecho.

Os seus textos marcadamente irreverentes tornaram o desafio conhecido e procurado ao longo destes 35 anos de história. Apregoava que entre o paraíso e o inferno preferia estar na fronteira, onde não há Deus nem Diabo, ou seja, para ele o jornalista deveria estar equidistante de tudo, limitando-se apenas a relatar os factos.

Boavida Funjua nunca se mostrava flexível e não gostava que alguém o desse informação e depois pedisse para que não fizesse uso da mesma. Razão pela qual teve muitos atritos com dirigentes, sobretudo por causa daquela sua irreverência e furo jornalístico.

Era confiado pelas pessoas que gostavam do jornalismo crítico porque Funjua não tinha medo de escrever doesse a quem doesse. Essa forma de ser fazia com que vezes sem conta muitos que achassem coisas anormais procurassem por Funjua porque era garante de transmissão fiel e sem medo das consequências. Por conta disso, não poucas vezes foi ameaçado como testemunhamos ao longo da convivência.

Não poucas vezes, à saída do campo, ouvi adeptos a remeter esclarecimentos de lances polémicos ao falecido colega. Diziam “vamos ver o que Funjua vai escrever amanhã” numa clara confiança por parte do público.

Funjua foi professor de muitos, ainda que os seus métodos de ensino pudessem ser questionados. Com métodos da velha escola do jornalismo – o dos gritos e ameaças – fez sua parte ensinando e moldando gerações de escribas.

Depois da saída por algum tempo de Joca Estêvão, Reginaldo Cumbana e Artur Manjate, este último não regressou mais, a produção ficou entregue a dois novatos, nomeadamente o autor destas linhas e Narciso Nhacila. Nessa altura surgiram ainda Arsénio Henriques e Lázaro Mabunda que acabaram abraçando outros projectos. Fiquei com Nhacila, o director Almiro Santos e o chefe Funjua. Inocentemente pensávamos, eu e Nhacila, que teríamos um tratamento VIP, pois éramos os únicos a garantir a saída do jornal à segunda-feira, mas tal não aconteceu porque a escola de formação de Funjua não permitia isso. Apertava-nos bastante que não queria saber da nossa situação de ainda aprendizes. Dizia que queria textos sem “desculpas de lana caprina” .

Exigia tanto de nós que isso fez-nos aperfeiçoar e aumentar a nossa responsabilidade. Ensinou-nos que durante as entrevistas havia necessidade de se “espremer o furúnculo até a exaustão” e sentir o cheiro que o mesmo liberta, como quem diz que as fontes deveriam ser espremidas até o último suspiro. Assim defendia Funjua e, com ele aprendemos a questionar.

Como chefe era tão duro e como colega ainda mais duro ao ponto de nunca ter-se preocupado em criar amizades na redacção. Aliás, ele, enquanto chefe, não queria ver ninguém na redacção porque “as notícias estão fora”, dizia sempre e com cara de poucos amigos.

Não obstante, o seu feitio, raramente agradável, aprendi a admirar Funjua, sobretudo quando deixou de ser Chefe da Redacção, pois ao contrário do que se poderia imaginar continuou escrevendo o seu Contra-Ataque e, já no fim da sua passagem terrena deixou-mos “As saudades que o tempo levou”.

Importa referir que a admiração aumentou pelo facto de ter decidido regressar a carteira. Fez licenciatura em jornalismo e depois mestrado porque era uma pessoa focada e é isso que guardo como aprendizado dos cerca de 15 anos de convivência com Boavida Valente Funjua, um adepto do Ferroviário de Maputo, mas que nunca se posicionou como defensor da causa verde-e-branca.

Era de feitio difícil, mas estava ali ensinando e curiosamente passou a ensinar melhor quando deixou de ser chefe. Nesse momento apregoava outra lição de vida: Manda quem pode e obedece quem tem juízo! Assim foi a nossa convivência.

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