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Para não passar por aquilo que passei Eusébio só fez bem em não regressar

Um dia antes de ser internado no Instituto do Coração, em Maputo, Mário Coluna voltou a referir-se, em entrevista ao nosso Jornal, à injustiça que o Estado moçambicano fez ao nacionalizar um prédio que comprou com o dinheiro ganho no futebol. O “Monstro Sagrado” sai em defesa do seu conterrâneo e colega no Benfica e na selecção de Portugal, Eusébio da Silva Ferreira, dizendo que fez bem em não regressar a Moçambique depois da independência, porque evitou que as propriedades que teria adquirido fossem nacionalizadas. 

Uma semana depois de ter sido agraciado pelo Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM), com o grau de mestre em Liderança Desportiva, a nossa Reportagem visitou o “Monstro Sagrado” em sua casa, num dos bairros nobres da capital do país.

Aos 77 anos de idade, completados no passado dia 6 de Agosto, Mário Coluna vive uma espécie de dor que o persegue e que provavelmente o vai acompanhar até à sepultura.

É essa a imagem que, infelizmente, guardamos da antiga glória do futebol mundial, de homem profundamente angustiado.

Tudo porque, segundo diz Mário Coluna, o Governo moçambicano nacionalizou um prédio seu pouco depois da Independência Nacional, que comprou com o dinheiro que ganhou enquanto futebolista em Portugal.

Na tentativa de rebater com Coluna as razões das suas recentes declarações à Imprensa, que apontavam que o desporto moçambicano estava carente de bons atletas e por isso se justificam os maus resultados internacionais, desafio visitou o “Monstro Sagrado”.

Sentindo-se injustiçado, o também antigo treinador e campeão pelo Textáfrica de Chimoio, Ferroviário de Maputo e presidente da Federação Moçambicana de Futebol acha que Eusébio da Silva Ferreira fez bem em não regressar a Moçambique.

No seu entender, para não passar pelas mesmas circunstâncias por que passou, mormente a perda da sua propriedade, Eusébio fez bem em permanecer em Portugal porque teria perdido o conquistado quando do processo das nacionalizações que se seguiu à Independência Nacional.

 

EUSÉBIO ESTÁ

BEM EM PORTUGAL

Angústia!

É este o termo que melhor espelha o estado de espírito de Mário Coluna, estrela que visitámos na passada quarta-feira, em sua casa.

O homem que já foi aplaudido em diversos cantos do mundo, que entrou para a história como o primeiro africano na qualidade de capitão a erguer o troféu de campeão europeu de clubes pelo Sport Lisboa e Benfica, está, nos dias que correm, feito um indivíduo amargurado, e traído pelo destino.

As suas palavras são disso uma prova quando, por exemplo, diz que “felizmente já corri o mundo graças ao futebol. Graças ao futebol conheci o mundo de uma ponta a outra. Se eu fosse rico, não conhecia o mundo que hoje conheço, mas graças ao futebol conheço.”

Mas, por detrás desse reconhecimento que o futebol lhe deu, está a dor pelo que os homens lhe retiraram.

- Quando volto para o meu país, o meu Governo pergunta-me por que voltei a Moçambique. Eu nasci na China? É uma pena! Custa acreditar nisto. Depois convidam-me para ser membro do partido (Frelimo), para ser deputado e atribuem-me o 3.º grau do Diploma de Honra Eduardo Mondlane. Mas tiram-me o prédio e não me devolvem o dinheiro que investi para comprá-lo. Isso custa-me muito. É por isso que agora fico calado– lamenta Mário Coluna, que mesmo assim se considera uma pessoa algo felizarda por, mesmo depois de ver o seu prédio nacionalizado, ainda ter ido a tempo de comprar mais uma casa, aquela onde vive agora.

“Felizmente tive emprego nos Caminhos de Ferro, onde trabalhava de manhã e a tarde ia treinar o Ferroviário de Maputo. Outra felicidade foi que, com o dinheiro que ganhei no Textáfrica de Chimoio, comprei esta casa, onde vivo agora” reconhece o “Monstro Sagrado”.

- Acha que Eusébio, com quem jogou no Benfica e na selecção de Portugal, fez bem em não ter regressado a Moçambique porque, se o tivesse feito e na posse de algumas propriedades, o Governo ter-lhe-ia tirado, tal como aconteceu consigo?

- Eu acho que sim! Para vir passar por aquilo que passei, eu acho que ele fez bem em não regressar a Moçambique. Ele está bem lá em Portugal. Tem a reforma no Benfica, está lá com a família e ninguém o aborrece. E nem jornalistas lhe vão perguntar por que não volta a Moçambique.

- Então, não é parte daquelas pessoas que criticam o Eusébio por não ter regressado a Moçambique!

- Eu? Por que iria criticar o Eusébio se ele está bem em Portugal? Como é que o Eusébio estaria aqui em Moçambique? Em que situação o Eusébio estaria aqui em Moçambique? Eu estou na situação em que me encontro porque, felizmente, tive a sorte de arranjar emprego nos Caminhos de Ferro, como treinador e ao mesmo tempo no Departamento de Formação. Trabalhei nos CFM até à reforma. Não é só o Eusébio! O Hilário também está lá, tal como o Vicente, irmão de Matateu e muitos outros que continuam lá em Portugal, onde são bem recebidos e têm as suas reformas nos clubes. Eles estão bem e acho isso muito bom. Que continuem onde estão porque, pelo menos, estão bem. Lá ninguém os chateia. Nem a Imprensa vai ter com eles para lhes perguntar por que não voltam a Moçambique. Os jornalistas em Portugal nunca perguntaram a Eusébio por que não volta a Moçambique.

- O Governo perguntou por que regressou a Moçambique?

- Pois! Isso tem lógica? A uma pessoa que nasceu aqui se pergunta por que voltou a Moçambique, à terra dele. Custa acreditar.

 

MUTOLA DEVIA ESTAR NO

MJD OU COMO TREINADORA

Para lá das lamúrias, Mário Coluna responsabiliza as autoridades governamentais pelo cada vez maior declínio do desporto nacional.

Para o antigo treinador e dirigente federativo, “em Moçambique há campos, mas o que falta são apoios do Governo e treinadores à altura para orientar as nossas equipas.”

- O nosso desporto caiu muito. Já viu o que é o Grupo Desportivo de Maputo estar na segunda divisão? Isso tem lógica? Já viu o que é um dos grandes clubes de Moçambique estar na segunda divisão? Custa acreditar nisto! Será que não há dirigentes aqui?– lamenta Coluna, quando se refere ao facto de o Desportivo de Maputo ter sido despromovido do Moçambola e devendo, em 2013, jogar na segunda divisão, concretamente no Campeonato da Cidade de Maputo.

É que, para Coluna, o Desportivo diz-lhe tanto, porquanto seu pai foi um dos dirigentes e sócio-fundador do emblema “alvi-negro”, do qual em 1954 rumou para Portugal, para representar o Sport Lisboa e Benfica.

- O próprio Governo devia apoiar o nosso desporto. Como é que está o nosso desporto? O futebol, atletismo e todas as modalidades estão em baixo. Por que já não temos atletas como Lurdes Mutola? Ela foi campeã durante anos e anos, quer nos campeonatos do mundo assim como em Jogos Olímpicos, mas o Governo não reconhece isso. Onde é que anda a Lurdes Mutola? Onde ela está a trabalhar e o que é que está a fazer? Se não estivesse no Ministério da Juventude e Desportos, então devia estar a dirigir o atletismo ou a trabalhar como treinadora aqui em Moçambique, mas infelizmente desde que deixou de correr nunca mais se ouviu falar dela –critica o nosso entrevistado, que insiste em dizer que o Governo devia pegar na Lurdes Mutola para ser dirigente lá no MJD ou para ser treinadora.

 

Separado da mãe…

aos quatro anos de idade

Afinal, Mário Coluna foi arrancado, à força, da sua mãe, aos quatro anos de idade!

A revelação é do próprio “Monstro Sagrado”, que recorda o episódio da sua saída de Magude para Lourenço Marques (Maputo), onde passou a viver com o seu pai.

- Em que ano saiu de Magude para Maputo (ex-Lourenço Marques)?

- Eu saí de Magude para Lourenço Marques com quatro anos, em 1939. Vim a Lourenço Marques para viver com o meu pai, porque em Magude vivia apenas com a minha mãe. Não tenho vergonha de dizer que em Magude dormia numa palhota que não tinha janelas. Só tinha uma porta. Onde vivia, mal havia uma casa de banho, daí que, para fazer necessidades biológicas, só se podia ir ao mato. A zona chama-se Chihuri. Mais tarde, quando já tinha quatro anos, o secretário do administrador de Magude, que se chamava senhor Paris, falou com o meu pai para ir buscar-me porque lá não havia escolas e eu não falava português. Em resposta, o meu pai disse ao secretário que me metessem no primeiro comboio que fosse a Lourenço Marques. Mas o secretário negou e obrigou o meu pai para que primeiro fosse a Magude registar-me. Só depois é que me poderia levar a Lourenço Marques. E foi isso o que o meu pai fez.

- O seu pai era…

- O meu pai era português, branco, e trabalhava nos Caminhos de Ferro. Era despachante oficial. Foi assim que o meu pai foi a Magude registar-me e me meteu a mim e a minha mãe no comboio com destino a Lourenço Marques. A gente morava ali no Alto Maé e era vizinho de Marcelino dos Santos. Quando chegámos, ele disse à minha mãe que a senhora devia ir-se embora, mas que o seu filho ficava. A minha mãe, porque não queria regressar a Magude sem mim, começou a chorar e a dizer que eu ia iria ficar com uma mãe que não tinha sentido dores de parto por mim. Eu, que não conhecia ninguém, até o meu pai, agarrei-me à minha mãe e comecei a chorar. Só que me arrancaram do colo da minha mãe, empurraram-na para fora da casa e foram deixá-la na estação dos Caminhos de Ferro para que regressasse a Magude.

- Como se chamava a sua mãe?

- Lúcia Chibure.

- Quando é que ela morreu?

- Foi há muito tempo. Eu ainda estava em Portugal.

- Quando ainda estava em Portugal, costumava vir a Moçambique para visitá-la?

- Não! Como é que viria para cá? Eu não tinha férias. Durante as férias, no final de cada época, o Benfica tinha férias para ir jogar ao Brasil, Argentina, Espanha e muitos países do mundo.

- Quer dizer que em 1939 se separaram de vez?

- É verdade! Separámo-nos de vez. Nunca mais vi a minha mãe. Desde os quatro anos que houve a separação, a gente nunca mais voltou a avistar-se.

- Nunca mais voltou a ter notícias dela?

- Como é que eu ia receber notícias dela se não sabia escrever e nem ler? Onde ela morava não havia ninguém que soubesse ler e escrever. A minha mãe depois arranjou um outro homem e tenho uma irmã que ainda vive lá em Magude.

 

Mário Coluna e os factos

Mário Esteves Coluna nasceu no dia 6 de Agosto de 1935, em Magude, província de Maputo.

Começou a jogar futebol na famosa equipa de João Albasini, que disputava os campeonatos organizados pela Associação Africana, destinada a negros e clubes da periferia da ex-cidade de Lourenço Marques (actual Maputo).

Por algum tempo, jogava em simultâneo nos seniores do João Albasine e nos juniores do Desportivo, equipa que militava na associação da cidade e destinada aos brancos e descendentes de europeus.

Volvidos alguns anos, passou em definitivo para o Desportivo, na época principal do Sport Lisboa e Benfica, no mundo. Em 1954, aos 19 anos, partiu para Portugal, onde foi jogar para o Benfica, primeiro como avançado-centro e depois a meio-campo.
Em 1961 e 1962, sagrou-se bicampeão europeu de clubes e, em 1966, integrou, juntamente com outros moçambicanos como Eusébio, Hilário da Conceição e Vicente Lucas (irmão de Matateu), a Selecção Nacional de Portugal que conquistou o terceiro lugar no Campeonato do Mundo, em Inglaterra.

Entre 1955 e 1968, Coluna somou 57 internacionalizações pela selecção portuguesa. Conquistou 10 títulos de campeão nacional ao serviço do Benfica (1954/55, 1956/57, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68 e 1968/69) e seis Taças de Portugal (1954/55, 1956/57, 1958/59, 1961/62, 1963/64 e 1968/69).
Em 1970, foi dispensado pelo Benfica e começou a treinar os juniores, apesar do interesse manifestado no jogador pelo Belenenses e FC Porto. No entanto, ainda trabalhou uma época no Olympique de Lyonnais, onde foi vice-campeão e finalista vencido na Taça da França.

Finda a aventura francesa, retornou a Portugal para a sua função de formador, pois o cargo de treinador, como fora no Estrela de Portalegre, não o agradou.
Após a Independência Nacional, Mário Coluna regressou ao seu país, onde foi treinador e campeão nacional pelo Textáfrica de Chimoio (1976) e Ferroviário de Maputo (1982).

Foi deputado na Assembleia (Popular) da República, pelo Partido Frelimo e foi também presidente da Federação Moçambicana de Futebol.

Em 2002 foi inaugurada a Academia Mário Coluna, na Namaacha, província de Maputo, com apoio financeiro da FIFA.

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Moçambola 2019

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Moçambola 2019

Pos Equipe J DP Pts V E D GM GC
1. UD Songo 10 +5 18 6 1 3 12 7
2. C. do Sol 10 +10 17 5 3 2 18 8
3. Fer. Beira 10 +6 16 5 2 3 13 7
4. Textafrica 10 -5 16 5 1 4 10 15
5. Maxaquene 10 +4 15 4 3 3 12 8
6. Chibuto 10 +3 15 5 1 4 10 7
7. Fer. Nacala 9 -1 14 4 2 3 11 12
8. Nacala 9 +2 12 3 3 3 10 8
9. LD Maputo 10 +2 11 3 4 3 9 7
10. Incomáti 10 -3 11 3 3 4 9 12
11. Fer. Maputo 10 0 10 3 4 3 7 7
12. Des. Maputo 10 0 10 3 2 5 11 11
13. ENH 9 -4 10 2 5 2 10 14
14. Fer. Nampula 10 -5 9 2 5 3 10 15
15. Têx. Púnguè 9 -7 6 1 3 5 7 14
16. B. de Pemba 10 -7 5 1 4 5 4 11
UD Songo 0 : 0 Fer. Maputo
Têx. Púnguè 1 : 1 Fer. Beira
Chibuto 1 : 0 Des. Maputo
C. do Sol 4 : 0 Textafrica
Fer. Nampula 2 : 1 Incomáti
Incomáti 1 : 0 Têx. Púnguè
B. de Pemba 0 : 1 Fer. Nacala
Des. Maputo 0 : 2 UD Songo

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